"Não sei de amor senão o amor perdido o amor que só se tem de nunca o ter procuro em cada corpo o nunca tido e é esse que não pára de doer.
Não sei de amor senão o amor ferido de tanto te encontrar e te perder.
Não sei de amor senão o não ter tido teu corpo que não cesso de perder nem de outro modo sei se tem sentido este amor que só vive de não ter o teu corpo que é meu porque perdido não sei de amor senão esse doer.
Não sei de amor senão esse perder teu corpo tão sem ti e nunca tido para sempre só meu de nunca o ter teu corpo que me dói no corpo ferido onde não deixou nunca de doer não sei de amor senão o amor perdido.
Não sei de amor senão o sem sentido deste amor que não morre por morrer o teu corpo tão nu nunca despido o teu corpo tão vivo de o perder neste amor que só é de não ter sido não sei de amor senão esse não ter.
Não sei de amor senão o não haver amor que dure mais do que o nunca tido.
Há um corpo que não pára de doer só esse é que não morre de tão perdido só esse é sempre meu de nunca o ser não sei de amor senão o amor ferido.
Não sei de amor senão o tempo ido em que amor era amor de puro arder tudo passa mas não o não ter tido o teu corpo de ser e de não ser só esse meu por nunca ter ardido não sei de amor senão esse perder.
Cintilante na noite um corpo ferido só nele de o não ter tido eu hei-de arder não sei de amor senão amor perdido."
Manuel Alegre
