Saí do cinema com aquela sensação dúbia que todo fã de longa data já conhece bem: a de ter me divertido com o que vi, mas de saber que poderia ter sido muito mais. Mortal Kombat II acerta em vários pontos onde o filme de 2021 tropeçou, e isso por si só já é motivo de comemoração. Mas, depois de pesquisar o que a crítica andou dizendo, descobri que minha leitura está mais próxima do que veículos como The Guardian, Variety e Winter Is Coming publicaram do que da euforia que tomou conta de boa parte da imprensa nacional. E faz sentido — quem cresceu jogando a franquia tem uma régua diferente.
A crítica está dividida (e isso diz muito)
Antes de entrar nos detalhes da minha experiência, vale o panorama. No Rotten Tomatoes, o filme tem 64% de aprovação entre 115 críticos, com um consenso que o descreve como "uma luta autoconsciente que dialoga com quem conhece a diferença entre Fatalities e Babalities". Já o Metacritic é mais frio: 47 de 100, em uma média que aponta para uma recepção mista.
Essa divisão não é por acaso. De um lado, há quem celebre o tom escrachado e a fidelidade visual aos jogos. Do outro, há quem aponte que o filme é um amontoado desconexo de cenas de luta sem espinha dorsal narrativa. Owen Gleiberman, da Variety, foi cirúrgico ao chamá-lo de um espetáculo barato de videogame antigo, todo som e fúria, sustentado por uma desculpa esfarrapada de história. Eu não chegaria a tanto, mas entendo o argumento.
Karl Urban: um Johnny Cage genérico em uma sombra de 1995
O ponto que mais me incomodou — e que pouca gente está discutindo — é Karl Urban como Johnny Cage. Não me entendam mal: Urban é um ator competente, e ele entrega uma performance funcional. Mas funcional não basta quando você está interpretando um personagem que já teve uma encarnação cinematográfica memorável.
Linden Ashby, no filme de 1995, criou um Johnny Cage que era arrogante na medida certa, carismático sem ser caricato, e que conseguia ser engraçado sem se tornar o alívio cômico ambulante de toda cena em que aparecia. O Cage do Urban é genérico. É um astro de ação decadente qualquer, com piadas que poderiam estar em qualquer outro filme. Falta-lhe a textura de um personagem que se levou a sério no jogo e que merecia ser levado a sério também aqui.
E é aí que está o problema central do filme: a equipe parece ter olhado para a recepção morna do primeiro longa, ouvido os fãs reclamando da falta de carisma de Cole Young, e decidido sobrecarregar o Johnny Cage com a missão de ser o coração cômico da obra. Funciona em alguns momentos, mas custa caro.
Kitana é a verdadeira protagonista (e isso é um mérito)
Por outro lado, preciso reconhecer: Adeline Rudolph como Kitana é o grande acerto do filme. Aqui a crítica especializada e eu concordamos plenamente. Kitana tem o melhor arco emocional, a melhor motivação, e segura a coluna dramática da história. Ela busca libertar Edenia das mãos de Shao Kahn, e essa motivação dá peso a praticamente todas as suas decisões.
Inclusive, é justo dizer que ela é a protagonista de fato. Johnny Cage rouba os holofotes promocionais e o discurso da crítica, mas se você prestar atenção em quem move a história, é Kitana. O filme abre com o flashback dela, fecha com a resolução do trauma dela, e tudo o que acontece no meio gira em torno do conflito que ela carrega. Que uma adaptação de Mortal Kombat tenha tido coragem de colocar uma personagem feminina nesse lugar é uma decisão narrativa que merece ser elogiada.
Kano salva, mas Raiden e Liu Kang ficam apagados
Josh Lawson como Kano é, para mim, o auge do alívio cômico. Ele tem pouco tempo de tela, mas cada minuto rende. É o tipo de personagem que entende exatamente o tom que Mortal Kombat precisa: zoeira, brutalidade e nenhuma vergonha de ser exagerado. Pena que ele aparece pouco — em parte porque o espaço cômico já estava ocupado pelo Johnny Cage.
E aqui chegamos a outra reclamação minha: Raiden e Liu Kang, dois pilares absolutos da mitologia de Mortal Kombat, têm menos tempo de tela do que vários personagens secundários. Liu Kang é, por essência, o herói canônico da franquia. Raiden é o deus que articula tudo. Reduzi-los a participações pontuais para abrir espaço para o arco de Cage e o drama de Kitana é uma escolha que entendo, mas não defendo. Dá para construir uma narrativa coral em que esses personagens tenham peso real — o filme só não quis fazer esse trabalho.
As lutas: bem coreografadas, mas com escorregadas
Aqui vou em parte na linha do que a crítica brasileira tem celebrado: as coreografias são, em geral, ótimas. Há um cuidado real com a gramática dos jogos de luta, com poses, arenas e impactos que remetem aos arcades. Os fatalities estão lá, são brutais, são satisfatórios.
Mas algumas cenas exageram além do tolerável, e a primeira luta do filme — Johnny Cage contra Kitana — é um exemplo claro disso. Em determinado momento, um personagem sobe em um telhado pelo único motivo aparente de o outro derrubá-lo de lá. Não há lógica de combate, não há uso inteligente do espaço; é coreografia pela coreografia. E sendo essa a primeira sequência de luta significativa do filme, ela deveria ter estabelecido um padrão, não diluído a expectativa logo de saída.
Quando o filme funciona — e funciona muitas vezes —, é quando ele encara as lutas como confrontos com peso narrativo. Quando ele falha, é quando esquece que coreografia sem propósito vira videoclipe.
Conclusão: divertido, mas longe do ideal
Saio do cinema entendendo perfeitamente por que tantos críticos brasileiros estão dando notas altas. Mortal Kombat II é mais divertido que o primeiro, mais fiel ao espírito dos jogos, e tem decisões narrativas corajosas — especialmente em torno de Kitana. Ele entendeu que a franquia precisa de exagero, sangue e referências, e entregou tudo isso.
Mas eu fico com o time da crítica internacional aqui. The Guardian deu duas estrelas de cinco. O New York Post foi ainda mais cruel, com uma estrela de quatro, descrevendo o filme como uma enxaqueca de lutas sem parar. Não chegaria a esse extremo, mas reconheço o sentimento: há momentos em que o filme parece um desfile de cenas de luta procurando uma história para chamar de sua.
Mortal Kombat II é um bom filme. Não é, ainda, um filme digno do que a franquia representa para quem cresceu com ela. E talvez essa seja a régua que importa. Fica a esperança de que o terceiro filme — já em desenvolvimento, com Jeremy Slater retornando ao roteiro — finalmente entregue o que o universo de Mortal Kombat merece.
Até lá, vou reassistir o de 1995.
Minha nota: 65%
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