Quando os primeiros boatos sobre uma continuação de A Rede Social (2010) começaram a circular, a mente de qualquer cinéfilo ou entusiasta de tecnologia foi imediatamente preenchida por um cardápio infinito de dramas corporativos. Afinal, a última década do Facebook foi um verdadeiro banquete shakespeariano.
No entanto, as notícias de que o roteirista Aaron Sorkin e o diretor David Fincher pretendem dar um salto temporal — saindo da consolidação do império de Mark Zuckerberg e caindo direto nos escândalos políticos de 2021 — trazem um balde de água fria. Pular essa década não é apenas um corte brusco; é ignorar a metamorfose mais fascinante da história empresarial moderna.
O que eu realmente esperava desse filme não era um documentário sobre a polarização política recente, mas sim um suspense corporativo nos moldes de Fome de Poder (The Founder, 2016). Eu esperava ver o nascimento do rolo compressor.
O Zuck no estilo Michael Keaton
No filme de 2010, vimos um Mark Zuckerberg jovem, brilhante, socialmente desajeitado e movido pelo rancor acadêmico e pelo desejo de validação. Ele queria criar o "anuário digital definitivo" e impressionar uma garota.
A continuação ideal deveria nos apresentar ao passo seguinte dessa evolução biológica: o Zuckerberg transformado no vilão corporativo definitivo. Estilo Ray Kroc (vivido por Michael Keaton), mas com uma diferença crucial de dinâmica. Kroc não tinha capital, então usou de malícia e brechas contratuais para arrancar o McDonald's dos irmãos fundadores. Zuckerberg, por outro lado, descobriu o peso esmagador do capital hiperconcentrado.
O drama dos anos 2010 a 2020 não é sobre um vigarista; é sobre o sufocamento sistemático de quem estava começando.
[Início dos Anos 2010] -----------------------------> [Fim dos Anos 2010]Zuckerberg Paranoico Zuckerberg Monopolista"O Instagram pode ser disruptivo. "Comprei, clonei, mutilei.Precisamos neutralizá-los." Agora o mercado é meu."
A Era de Ouro que Hollywood vai ignorar
Se o roteiro focasse puramente nessa década intermediária, teríamos três arcos dramáticos que sustentariam um filme inteiro com aquela velocidade de diálogos que só Sorkin sabe entregar:
1. A Máfia do Sapatênis: "Ou você vende, ou eu te enterro"
Eu esperava ver as cenas de bastidores — que hoje sabemos que aconteceram por meio de e-mails vazados no Congresso americano — de Mark Zuckerberg jantando com Kevin Systrom (Instagram) e os fundadores do WhatsApp.
O clima de filme de máfia adaptado para o Vale do Silício: um bilionário sorridente oferecendo um cheque de um bilhão de dólares com uma ameaça velada nas entrelinhas: "Se aceitarem, ficam ricos. Se recusarem, eu clono o aplicativo de vocês amanhã, uso minha base de usuários para sufocá-los até a falência e vocês saem sem nada."
2. O Terror Psicológico dos Puristas
O verdadeiro clímax dramático não seria uma explosão, mas o esmagamento moral de Kevin Systrom e Jan Koum (WhatsApp) após serem comprados. Eles entraram na holding achando que manteriam a autonomia e a ética de seus produtos, apenas para serem engolidos vivos:
As exigências de Zuckerberg para rastrear dados e quebrar a privacidade dos usuários.
O sufocamento de orçamento para forçar os criadores originais a dobrarem os joelhos.
O esgotamento psicológico de perceber que venderam suas criações para o monstro que quer dominar o mundo.
3. O Desfecho dos Renegados
O filme precisava fechar os arcos de Eduardo Saverin e Sean Parker. Ver o contraste de Eduardo, bilionário e exilado por escolha em Singapura, assistindo de longe ao ex-amigo ser grelhado em comissões antitruste em Washington seria o paralelo poético perfeito para o final do primeiro filme.
Um Final Amargo e Brilhante
O filme que eu esperava terminaria com o abandono do navio. A cena final ideal seria os fundadores do Instagram e do WhatsApp assinando suas demissões coletivas em 2018, abrindo mão de fortunas em ações simplesmente porque não aguentavam mais compactuar com o que o Facebook havia se tornado.
Eles saindo da sala derrotados, e a câmera recuando para mostrar Mark Zuckerberg, mais uma vez sozinho em uma sala fechada, mas agora controlando o fluxo de informação e a atenção de metade do planeta Terra.
Pular direto para 2021 e focar nos Facebook Papers ou na invasão do Capitólio corre o risco de transformar a sequência em um manifesto político datado. O que fazia de A Rede Social uma obra-prima era o estudo de personagem. E o estudo de como o nerd incompreendido se tornou o maior monopolista do século XXI ficou perdido em algum lugar entre 2010 e 2020.

