Mestres do Universo: o filme que Eternia merecia, mas que o mercado talvez não veja florescer (Crítica)

Saí do cinema no dia da estreia com uma sensação que poucas adaptações nostálgicas me proporcionaram nos últimos anos: a de que alguém, finalmente, entendeu o material. Mestres do Universo não é um filme perfeito — está longe disso —, mas é, sem dúvida, o melhor tratamento que He-Man recebeu nas telonas. E o mais frustrante é que descobri, ao acompanhar os primeiros números de bilheteria, que esse cuidado pode não ter sido suficiente para garantir o futuro da franquia no cinema.

A crítica está rachada — e o público discorda dela

Antes de entrar no mérito, vale o panorama. A crítica internacional foi dura: The Guardian deu 2 de 5 estrelas, descrevendo o filme como um fracasso inexplicável de 200 milhões de dólares; o Wall Street Journal foi ainda mais ácido, chamando-o de "um Golden Corral digital" — referência ao buffet americano famoso por ter muita coisa de qualidade duvidosa. Já a crítica brasileira foi consideravelmente mais simpática, com veículos como o Plano Crítico elogiando a coragem de Travis Knight em abraçar o tom camp da franquia em vez de tentar fazer mais uma fantasia sombria envergonhada de suas origens.

Mas o dado mais interessante está no público: 87% de aprovação no Rotten Tomatoes entre quem viu o filme. Essa diferença gritante entre crítica especializada e audiência geral diz muito. Não é o tipo de divisão que aparece quando um filme é genuinamente ruim — é a divisão que aparece quando um filme é feito para um nicho específico, esse nicho ama, e o resto do mundo não entende a graça.

Eu pertenço a esse nicho. E acho que você, provavelmente, também.

Nicholas Galitzine entendeu o que Dolph Lundgren não conseguiu

Aqui está o maior acerto do filme, e é importante dizer isso de cara: Nicholas Galitzine é o He-Man que merecíamos desde 1987. Não me entendam mal — Dolph Lundgren tinha o físico, a postura, a presença de um guerreiro de fantasia. Mas o filme de 1987 cometeu o pecado capital de tirar He-Man de Eternia para enchê-lo de drama adolescente americano dos anos 80, e Lundgren ficou preso em um roteiro que não sabia o que fazer com ele.

Galitzine entende o personagem por dentro. Ele consegue ser galhofa quando o filme precisa de leveza, consegue ser épico quando o momento exige, e — talvez o mais importante — não tem vergonha de estar interpretando um sujeito loiro de calção de couro gritando "Pelos poderes de Greyskull". Essa ausência de vergonha é o combustível secreto de qualquer adaptação bem-sucedida de propriedade dos anos 80. O Sam Raimi entendeu isso no primeiro Homem-Aranha. O James Gunn entendeu nos Guardiões. Travis Knight entendeu aqui.

O cuidado em colocar Lundgren em uma ponta é o tipo de gesto que separa um filme feito por fãs de um filme feito por executivos. É um passar de bastão simbólico, e funciona.

Jared Leto como Esqueleto: a aposta que divide tudo

E é aqui que minha leitura do filme bate de frente com parte da crítica brasileira. Jared Leto como Esqueleto é uma escolha ousada, e dependendo de onde você senta na questão "Jared Leto é genial ou insuportável?", o filme vai funcionar mais ou menos para você.

O diretor descreveu o vilão como uma representação de masculinidade tóxica, e essa leitura está claramente no filme. O problema é que essa abordagem tira parte da ameaça primal que o Esqueleto sempre teve nos desenhos. O vilão original era uma força do mal pura, alguém que queria poder pelo poder, com uma estética de pesadelo gótico. O Esqueleto do Leto é mais articulado, mais psicológico, mais "ator querendo ganhar prêmio". Funciona como performance? Funciona. Funciona como o Esqueleto que eu queria ver? Aí já é outra conversa.

Os elementos da Horda do Mal — Garra, Maligna (interpretada por Alison Brie), Mandíbula, Pig Boy, o Roboto na pele dublada por Kristen Wiig — estão todos lá, com personalidade, e isso compensa muita coisa. Mas o protagonismo do Leto às vezes engole esse coletivo, e essa é uma escolha que o filme paga caro nos atos finais.

As referências, as piadas e o "suco brasileiro" do filme

Esse foi o ponto que mais me surpreendeu, e provavelmente o motivo de o público brasileiro estar respondendo tão melhor que o americano. Mestres do Universo foi feito com uma consciência impressionante de que He-Man, no Brasil, é parte da memória afetiva de várias gerações de um jeito que nos Estados Unidos nunca foi.

O meme musical do desenho aparece em momentos que arrancam riso de qualquer adulto que assistiu na TV aberta. As piadas envolvendo a Espada do Poder — sua relação meio constrangedora com o Adam, o peso simbólico que ela carrega, a forma como o filme zoa o próprio fato de o herói ser literalmente o mesmo cara só que mais cheio de músculo — são exatamente o tipo de humor autoconsciente que funciona melhor para quem cresceu assistindo o desenho e nunca questionou aquela lógica.

E aí entra o elenco brasileiro de coração: Camila Mendes como Teela traz uma camada extra de proximidade para o público latino, e a galera no cinema reagiu a cada cena dela como se fosse coisa nossa. Idris Elba como Mentor (Man-At-Arms) é simplesmente perfeito — gravidade, dignidade, o tio que toda criança queria ter para guiar sua jornada.

O gancho da She-Ra: esperança ou ilusão?

Sem dar spoilers significativos, vale dizer que o filme prepara o terreno para uma continuação focada na She-Ra de maneira competente. Não é jogado como um após-créditos qualquer; é tecido na própria narrativa, com peso emocional. É o tipo de gancho que faz quem conhece a mitologia sair do cinema empolgado.

O problema é que a bilheteria pode matar essa empolgação no berço. O filme abriu com 29,3 milhões de dólares nos Estados Unidos e 54,3 milhões globais — para uma produção de 200 milhões. A matemática de Hollywood é cruel: para se pagar, um filme precisa render entre 2 e 2,5 vezes o orçamento, considerando marketing e divisão com cinemas. Estamos falando de uma meta de quase 500 milhões para empatar, e a tendência das próximas semanas não aponta para esse número.

A demografia explica muito do problema: apenas 5% do público da estreia tinha menos de 12 anos, e apenas 6% tinha entre 13 e 17. A maior fatia, 29%, foi gente entre 45 e 54 anos. Em outras palavras: o filme funcionou como nostalgia, mas falhou em fisgar a criança nova, que é justamente quem sustentaria o universo expandido com She-Ra.

A esperança real está em duas frentes. Primeira, o streaming: a Amazon MGM tem o Prime Video, e a possibilidade de aluguel via PVOD (Premium Video on Demand) já salvou filmes como The Fall Guy de virarem prejuízo absoluto. Segunda, uma She-Ra com orçamento bem menor — talvez na faixa de 80 a 100 milhões — poderia ser viável mesmo com a performance abaixo do esperado deste primeiro filme. É o que a Legendary fez com o MonsterVerse após o Godzilla de 2014 não estourar como esperavam.

Conclusão: o filme é bom, agora cabe ao público responder

Mestres do Universo é, ironicamente, o oposto de Mortal Kombat II. Lá, eu tinha um filme tecnicamente competente que não capturava a alma da franquia. Aqui, tenho um filme com tropeços narrativos e ritmo desigual, mas que entende profundamente o que He-Man significa para quem cresceu com ele. E nesse jogo de prioridades, fico do lado de quem entendeu a alma.

Travis Knight entregou uma adaptação carinhosa, esteticamente ousada, com elenco competente e referências cuidadas. Em um ano em que vimos tantas franquias dos anos 80 fracassarem por se levar a sério demais ou por terem vergonha das próprias raízes, esse filme acerta justamente onde o filme de 1987 errou: ele não tenta ser outra coisa.

Se você gosta de He-Man, vá ao cinema. Vá no cinema, não espere o streaming. Leve um amigo, leve um sobrinho, leve seus pais. Porque a única coisa que pode salvar a chance de vermos uma She-Ra digna nos próximos anos é justamente o que o filme americano não está conseguindo: bilheteria.

E sinceramente, depois de 17 anos de desenvolvimento, com o projeto passando por Sony, Warner, Netflix, e diretores como Jon M. Chu, McG e até cogitando Noah Centineo como protagonista, é quase um milagre que tenhamos chegado a um filme bom. Seria uma pena ver Eternia voltar à gaveta agora.

Minha nota: 78%


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Tiago Sousa

Sou Desenvolvedor Web Full-Stack com ênfase em Java, atuando no mercado de TI há 15 anos. Ao longo da carreira, adquiri conhecimentos sólidos e abrangentes em diversas tecnologias.